Nos últimos meses, tenho recebido cada vez mais empresários estrangeiros no meu escritório perguntando a mesma coisa: “Dr. Miguel, minha empresa ainda não tem operação nos Estados Unidos, mas eu quero transferir um executivo de confiança para abrir esse escritório. Isso é possível?” A resposta é sim, e o caminho mais comum para isso é o visto L-1A para novos escritórios.
Esse é um dos processos mais estratégicos que acompanho, mas também um dos mais exigentes em termos de documentação. Por isso resolvi escrever este guia com o que realmente importa para quem está pensando em usar esse visto de trabalho americano como porta de entrada para o mercado dos EUA em 2026.
O que é o visto L-1 para novos escritórios
O visto L-1 é uma transferência intracorporativa: permite que uma empresa que já opera fora dos Estados Unidos transfira um funcionário para uma unidade relacionada em território americano, seja ela filial, subsidiária ou afiliada. Quando essa unidade americana ainda não existe de forma consolidada, ou está funcionando há menos de um ano, o USCIS trata o caso como “novo escritório”, e a análise muda bastante.
Nesses casos, o órgão migratório não tem histórico de operação nos EUA para avaliar. Então o foco inteiro da petição passa a ser: essa empresa vai conseguir, de fato, se tornar uma operação real dentro de um prazo curto, capaz de sustentar uma função executiva ou gerencial legítima? Não basta abrir uma empresa no papel. É preciso demonstrar viabilidade concreta.
Por que praticamente todo novo escritório usa o L-1A, e não o L-1B
O visto L-1 tem duas classificações. O L-1A é voltado a gerentes e executivos, enquanto o L-1B é destinado a funcionários com conhecimento especializado. Quando o assunto é abrir um escritório novo, praticamente sempre recomendo o L-1A, e o motivo é simples.
Um negócio recém-formado nos Estados Unidos precisa de alguém com autoridade para tomar decisões estratégicas, contratar equipe, alocar recursos e conduzir o crescimento da operação. Isso é função executiva ou gerencial, não uma atuação técnica baseada em conhecimento especializado. Quando um cliente tenta estruturar um novo escritório em torno do L-1B, normalmente isso levanta a dúvida de quem, na prática, está gerenciando o negócio, o que tende a gerar questionamentos do USCIS. Por isso, no meu escritório, o L-1B raramente entra na conversa quando o assunto é abertura de operação nova.
Os requisitos que não mudam, seja o escritório novo ou não
Alguns critérios do L-1 se aplicam independentemente de a empresa americana já estar em funcionamento ou estar apenas começando:
- Precisa existir uma relação societária qualificada entre a empresa estrangeira e a empresa americana, seja como matriz e subsidiária, seja como afiliadas sob controle comum. Essa relação precisa estar comprovada documentalmente no momento do protocolo, não apenas planejada para o futuro.
- O funcionário transferido precisa ter trabalhado para a empresa estrangeira por, no mínimo, um ano contínuo dentro dos três anos anteriores ao pedido.
- Esse ano de experiência precisa ter sido em função executiva ou gerencial, no caso do L-1A. Um plano de negócios excelente não compensa uma trajetória profissional fraca nesse quesito, porque o USCIS avalia os dois pontos de forma independente.
O que torna o caso de novo escritório diferente na prática
A grande diferença é que, além de comprovar a relação societária e a experiência do executivo, a empresa precisa demonstrar viabilidade futura. É preciso mostrar, com detalhes concretos, que o negócio americano vai conseguir sustentar uma função executiva ou gerencial de verdade dentro de um ano após a aprovação, e não apenas manter o beneficiário ocupado com tarefas operacionais do dia a dia.
Em 2026, os oficiais de imigração continuam prestando muita atenção a esse ponto: se o executivo transferido vai realmente gastar a maior parte do tempo gerenciando pessoas e funções, ou se vai acabar assumindo tarefas operacionais por conta da empresa ainda ser pequena. Esse segundo cenário é justamente o que costuma gerar pedidos de mais evidências (RFE) ou negativas.
O plano de negócios é o coração da petição
Se eu tivesse que escolher um único documento decisivo em uma petição de novo escritório, seria o plano de negócios. É nele que o USCIS busca entender se as projeções da empresa são realistas, se o quadro de funcionários planejado é suficiente e se a função executiva ou gerencial vai realmente ser sustentada pela operação.
Um bom plano de negócios para 2026 explica com clareza a operação da empresa no exterior, o motivo da expansão para os Estados Unidos e como a unidade americana se encaixa na estrutura corporativa como um todo. Ele traz uma análise de mercado consistente, mostrando uma necessidade real de presença nos EUA, e não apenas um interesse especulativo. E, principalmente, apresenta um plano de contratação detalhado: quando as pessoas serão contratadas, quais funções vão exercer e como essas contratações vão liberar o executivo para atuar em supervisão, e não em execução.
As projeções financeiras normalmente cobrem de 12 a 36 meses e precisam estar alinhadas com essa narrativa de contratação e operação. O visto L-1 não exige um valor mínimo de investimento, mas o USCIS costuma esperar evidências de que a empresa estrangeira tem capacidade financeira de sustentar a operação americana durante a fase inicial.
Endereço físico: um ponto que costuma pegar empresas de surpresa
Um dos aspectos mais mal compreendidos do L-1 para novos escritórios é a exigência de espaço físico já garantido no momento do protocolo. O USCIS espera evidências de que a empresa já obteve um espaço adequado para o início das operações e para o crescimento previsto ao longo do primeiro ano.
Isso costuma surpreender empresas que operam de forma totalmente digital ou remota. Mesmo em 2026, com tantos negócios funcionando sem escritório físico tradicional, a resposta continua sendo a mesma: sim, o endereço físico é necessário. Endereços de correspondência, escritórios virtuais e espaços de coworking que oferecem apenas uma cadeira compartilhada ou acesso ocasional a uma sala de reunião geralmente não são suficientes. Mesmo empresas cujo produto, cliente e receita são inteiramente digitais precisam demonstrar um espaço comercial dedicado, compatível com a operação e o quadro de funcionários projetado.
Contratos de locação muito curtos também costumam levantar questionamentos, mesmo quando existe opção de renovação, assim como espaços cujo tamanho parece incompatível com o número de funcionários previsto no plano de negócios. Sempre oriento meus clientes a estruturar o contrato de aluguel pensando na capacidade futura da operação, e não apenas na necessidade mínima do início.
A pressão do primeiro ano de aprovação
Quando a petição de novo escritório é aprovada, o USCIS costuma conceder um ano de status L-1A ao beneficiário. Esse primeiro ano é decisivo. A empresa precisa sair do papel e mostrar avanço operacional real, com contratações e geração de receita concretas.
A extensão de status exige prova de que o negócio cresceu o suficiente para sustentar a função executiva ou gerencial de forma contínua. Como os pedidos de extensão costumam ser preparados meses antes do vencimento do status inicial, empresas que atrasam contratações ou mantêm a operação enxuta demais correm o risco de chegar despreparadas na hora de comprovar esse progresso.
Do L-1 para novos escritórios ao green card EB-1C
Um dos benefícios estratégicos que mais destaco para clientes é a conexão natural entre o L-1A para novos escritórios e a categoria de green card EB-1C, voltada a gerentes e executivos multinacionais. Depois que a empresa americana completa pelo menos um ano de operação e demonstra complexidade organizacional suficiente, o executivo transferido pode buscar a residência permanente por essa via, aproveitando boa parte das evidências corporativas e operacionais já reunidas durante a fase do L-1A.
Quando a estrutura é bem pensada desde o início, essa transição costuma ser mais previsível e eficiente do que outros caminhos de green card baseados em emprego.
Quando o L-1 não é a estratégia certa
Nem toda empresa ou executivo se encaixa no perfil de novo escritório. Em algumas situações, oriento meus clientes a considerar outras portas de entrada:
- Profissionais com forte reconhecimento na área, sem necessariamente ter uma estrutura corporativa para transferir, podem se beneficiar mais de um visto eb 1a de habilidade extraordinária, ou de um visto americano eb2, incluindo o eb2 niw para quem tem um projeto de relevância nacional, como costuma acontecer com o visto eb2 niw para engenheiros.
- Investidores que preferem estruturar o ingresso nos Estados Unidos através de capital, e não de transferência corporativa, geralmente perguntam sobre o visto eb 5 e o retorno do investimento envolvido nesse tipo de estratégia.
- Fundadores que ainda estão na fase de estruturação societária, antes mesmo de pensar em vistos, costumam precisar de apoio para abrir LLC nos EUA e organizar a parte de direito empresarial que vai sustentar o negócio no país.
Minha recomendação final
O visto L-1A para novos escritórios continua sendo, na minha experiência, uma das ferramentas mais poderosas para empresas estrangeiras que querem entrar no mercado americano com um executivo de confiança à frente da operação. Mas é também um dos processos mais exigentes em termos de planejamento, e pequenos deslizes no plano de negócios ou na escolha do espaço físico podem custar caro em forma de RFE ou negativa.
Se você está avaliando abrir uma operação nos Estados Unidos e quer entender se o L-1A é o caminho certo para o seu caso, ou se faz mais sentido considerar outra estratégia dentro do seu planejamento como advogado brasileiro nos EUA, terei prazer em analisar seu perfil com você.
Marque uma consulta com o meu escritório e vamos construir juntos a estratégia mais sólida para a expansão da sua empresa nos Estados Unidos.
Dr. Miguel